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Franciscos, escolhas, Natureza, simplicidade e potência no Ser

Francisco, o Ser, Francisco, o Rio, Francisco, o santo, entraram na minha vida desde que me entendo como gente

Licuri é côco, leite, ração animal, ninho de vida

Por Liliana Peixinho – O dia 4 de outubro é repleto de simbologia de vida e proteção. É dia de São Francisco, o Ser e o santo. É data de descobrimento do rio São Francisco. É dia dia Mundial dos Animais. É dia de criação do Movimento AMA, em 04 de outubro de 1999. É dia de cuidar da vida.

Histórico

Francisco, o Ser, Francisco, o Rio, Francisco, o santo, entraram na minha vida desde que me entendo como gente. E tudo começou lá na infância, com a família de minha mãe, Iracema, em Barreiras, nos passeios ao Rio de Ondas, braço do Rio Grande, afluente do Velho Chico. Lá no oeste da Bahia, em Barreiras, onde nasci. Como a Natureza sempre fora rota de vida de meus pais, a história continuou. Ainda criança, com sete anos, nossa família se mudou da região de Angical e Barreiras, para Juazeiro, Norte da Bahia. Enfrentaram cerca de mil quilômetros, oeste adentro, em estradas esburacadas e poeirentas, numa saga de mudança entre Angical/Barreiras, até Juazeiro, onde a ponte que liga a Bahia com Pernambuco, é cenário de muitas histórias à beira do rio.

Dona Iracema, exímia plantadora e cuidadora de plantas frutíferas e medicinais e “Mãe” Isaura, anfitriã da greve de fome pela Revitalização do Rio São Francisco, em Pernambuco

Arte como potência de vida

E foi em Juazeiro que o gosto pela arte, adquirida, em São Paulo, onde meu pai viveu, nos anos 50, abriria espaços de vida através do Cinema, com salas de projeção de filmes instaladas por seu Peixinho e o amigo Nilton.
Entre centenas de filmes, de arte, aventura, chanchada, faroeste, musical, o filme “Irmão Sol, irmã Lua”, lançado em 1972, direção de Franco Zeffirelli, cravou em meu Ser, de forma orgânica, a relação potente sobre a necessidade de harmonia entre Vida Humana e natureza.

São Francisco, como Ser humano, sem ser santo, despertou o sentido d’outro no eu” (nome de grupo que criaria, imagina, quase 60 anos depois) durante os cuidadod com o Alzheimer de meu pai.

Gata Nina e a vegetação da caatinga

Vida e simplicidade

A nudez pública de Francisco de Assis é símbolo de indignação, luta e atenção ao que desde lá do início, historicamente, continua a desafiar estruturas religiosas, sociais, políticas e de comportamento individual.

Laudato Si

Outro Francisco, o Papa, na encíclica “Laudato Si”, nos remete ao planeta como “Nossa casa Comum”, mas a estrutura da Igreja como instituição é um verdadeiro paraíso, e diz-se poder aprender a cuidar do ambiente, através de cursos sobre a necessária harmonia entre ser humano e natureza.
Quando vi aquela perfeição de lugar, de imediato, pensei, se pago o que não posso para trabalhar em defesa da vida, e não consigo- depois de quase 30 anos do Movimento AMA- ver pratos decentes de comida para crianças, ricas ou pobres, obesas e mal nutridas, como o povo poderia acessar esses cursos que a Igreja está disponibilizando e que eficiência teriam em ambientes greenwashing?

Seu Peixinho, amigo da Natureza, dando comida a animais, na roça

AMA em movimento

Dia 4 de outubro é oportunidade de mais reflexão porque são muitas memórias de ação, Brasil e mundo afora, do Movimento ativista AMA, em atividade diária nesses 25 anos de existência. E podemos lembrar de alguns como a entrega do “Dossiê Velho Chico”, pessoalmente, ao então embaixador da Unesco, em Paris, em 2002; do plantão de 28 dias na casa da anfitriã “Mãe Isaura” , na Comunidade rural de São Sebastião, em Cabrobó, marco da mobilização pela Revitalização do Rio São Francisco em 2005, durante e depois, a histórica greve de fome do Bispo Dom Cappio; a ação intinerante e permanente “Imersões Jornalísticas Comunitárias Sertão adentro- Brasil afora”; a campanha voluntária no Movimento Marina Silva, e posterior criação da REDE- Sustentabilidade; campanhas permanentes e itinerantes como “Desperdício Zero, Fome Zero, Lixo Zero”; “Tire o cimento, plante o alimento”, “Floresta em Pe”; Agenda ADA- Ações Domésticas Ambientais “, entre tantas, que se ampliam em novos desafios.

Campanha permanente e intinerante do Movimento pela preservação da vida, desde 4 de outubro de 1999

O 4 de outubro

São Francisco de Assis, Giovanni di Pietro di Bernardone, nasceu em 1181/1182 em Assis, filho de comerciante rico. Foi jovem vaidoso, soldado preso na guerra de Assis contra Perugia em 1202, e depois teve o “chamado”. Largou tudo, foi viver em cabanas no mato pregando aos pobres e aos animais.
Morreu em 3 de outubro de 1226 e foi sepultado em 4 de outubro. Por isso a Igreja celebra no dia 4. Foi canonizado em apenas 2 anos, em 1228, pelo Papa Gregório IX.

Francisco foi reconhecido como protetor da natureza e dos animais, não foi por decreto, foi pelo modo de viver. Ele chamava todas as criaturas de irmãos- irmão sol, irmã lua, irmão lobo, irmã água. Isso está no Cântico das Criaturas ou Cântico do Irmão Sol, primeira poesia em italiano, onde ele louva Deus através do sol, lua, vento, água, terra e até da morte.

Na história sobre o lobo, de Gubbio, a cidade era aterrorizada por um lobo feroz. Francisco, em vez de mandar matar, foi dialogar com o lobo e fez um pacto de paz entre o lobo e os moradores. Nessa harmonia sábia, respeitosa com a Natureza, ele pedia aos frades que ao recolher lenha pegassem só galhos caídos, para não derrubar árvores. E hoje fazemos campanhas sobre o valor da floresta como ‘Árvore em pé: ‘Verde vida’ ‘Quintas verdes’. ‘Tire o Cimento.Plante o alimento’.

Em 1979 o Papa João Paulo II, proclamou Francisco patrono dos ecologistas.
Em 1931, durante um encontro de ecologistas em Florença, Itália, escolheram 4 de outubro para homenagear o santo e criar o Dia Mundial dos Animais.
Em 1978 a Unesco lançou a Declaração Universal dos Direitos Animais, afirmando igualdade perante a vida, direito ao respeito e à liberdade no habitat natural.

Simbolo de vida – A simbologia que aparece nas imagens de Francisco, os pássaros, representa todos os animais e a ligação com a natureza. É o santo pregando aos passarinhos.
O lobo e a ovelha aos pés, a pomba na mão: lembram o cuidado com os bichos.
A cruz e as chagas: pediu sentir o sofrimento de Cristo e recebeu os estigmas.

AMA e cultura dos 8 Rs

O que Francisco fez em 1200, o Movimento Ativista AMA vem tentando resignificar, desde a sua criação, em 04 de outubro de 1999, através, por exemplo, da campanha permanente e intinerante: Desperdício Zero= Lixo Zero, com ações práticas dos 8 Rs; Reduza, Recuse, Reparta, Reutilize, Repense, Reaproveite, Recrie, Revolucione.

São muitos os Franciscos inspiradores como Assis, italiano de uma pequena cidade, família abastada, que botou os pés no chão, a mostrar ousadia, coragem no olhar sobre o outro.

Diferente dos pais de Francisco de Assis, meus pais foram e continuam sendo Norte, como filha inquieta com injustiças, fome, desigualdade, desumanidade, indignidade no viver.

Na contramão do poder

Francisco de Assis deixou de lado valores cultuados como brasão familiar, tranquilidade, herança, e foi ao encontro de gente sem teto, sem comida, sem saúde. Num texto de Fábio José Garcia Paes, Francisco rasga o mapa do poder, ignora a lógica dos castelos e da cúria, escolhe viver do lado de fora- dos muros, das normas, das certezas”.

Legado dos pais – Como filha de pais que foram exemplo de trabalho na proteção da natureza, e neta de vó que ensinou a entender a coragem de Francisco, é sonho realizar a construção de uma estrutura em pedras (deixadas por meu pai) como um lugar potente em informações para ensinamentos sobre proteção dos ambientes como nossa casa comum.
Aquela roupa, despojada, de Francisco, remete a cor da roupa da labuta do trabalhador do campo, onde a terra é símbolo de vida.

Precioso texto de Fábio José Garcia Paes, diz que “Francisco fugiu da santidade feita de ouro e ritual”. E que, mesmo no fim da vida, quando já era reverenciado como um santo vivo, fez um último pedido: que o deixassem morrer nu, deitado na terra.

A reação dos “Irmãos” foi de desespero : “isso vai destruir sua imagem!”. Observação que pode reforçar respeito, admiração por um Francisco sem interesse em imagem. “Ele queria viver o mistério. Francisco não fundou uma ordem”.

Obra poética

Como que movido pela potência da Natureza, Francisco deu início a um sopro. Um movimento que não vem da lei, mas da arte. Da intuição. Do espírito.
Suas obras não são tratados. São poemas.

O quase milenar “Cântico do Irmão Sol “tem interpretação profunda como oração/manifesto.Um texto que, segundo estudiosos “desestabiliza o antropocentrismo antes que a palavra existisse”.

Fraternidade e revolução

Aos 15 anos, numa excursão da cidade de Senhor do Bonfim, (onde morava), para Salvador, numa apresentação musical do Padre Zezinho, na Concha Acústica, me encantei com a mensagem poética de Francisco assim interpretada “É um hino onde o Sol é irmão, a Terra é mãe, o Fogo é alegre, a Morte é irmã, e até o verme mais ínfimo entra no coro da Criação. O Ser Francisco revela que a fraternidade é revolucionária. Longe de ritos rasos religiosos, reforça a interpretação da fraternidade Não como um sentimento fofo ou ideal, mas como prática radical de convivência.

O outro no eu

No mundo em cenários de violência, desrespeito, intolerância, “viver com o outro – o outro real, que incomoda, que pensa diferente, que nos desorganiza- é mais difícil do que votar, legislar ou discursar”. E vamos concordar que “fraternidade não é um acessório da democracia- é sua alma. É viver o vínculo para além do controle, da utilidade ou do consenso”. Vale reproduzir a ideia de que
Francisco não se limitou a amar os humanos. Ele&😘 irrompeu a lógica da exclusão, chamando tudo e todos de irmãos”.
Um poeta, inspirado nessa mesma vida que desinstalava o ego e refundava o afeto, compôs a célebre Oração da Paz. Não foi Francisco quem a escreveu- mas foi ele quem a viveu. Palavra por palavra.
E vale reproduzir e interpretar a interpretação de Fábio José Garcia Paes quando sublinha,
Ao dizer :
“Onde houver ódio, que eu leve o amor”,
é declarar guerra à lógica do revide.
“Onde houver ofensa, que eu leve o perdão”
é romper o ciclo da troca.
“É dando que se recebe”
é virar a economia de ponta-cabeça.
“É amando que se é amado”
é abandonar a exigência de retorno.
“A Oração da Paz não é um pedido: é um deslocamento.
Uma inversão do jogo. É Francisco encarnado num poema.

Francisco foi corpo aberto ao invisível.
E por isso incomoda tanto.
Porque ele mostra que é possível existir fora do esquema, fora da máquina, fora do script. E mesmo agora, tantos séculos depois, é difícil capturar quem ele foi. O “poverello” – o pobrezinho – ainda escapa. Ainda assombra. Ainda inspira”.

A vida, planeta afora, pede socorro. Consumo é símbolo de desejo, mais que necessidade, Francisco é exemplo, inspiração, escolhendo viver na simplicidade.

Memorial
Sabino Ferreira Peixinho

*09.07.1933
+29.01.2021

CÉU, TERRA, FOGO, ÁGUA, AR, AMOR

Como instrumento da Criação Divina desempenhastes, com amor, retidão de caráter, honestidade, criatividade, compromisso coletivo, cuidado, zelo, beleza, leveza e simplicidade do Bem-viver a missão de filho, irmão, sobrinho, amigo, tio, padrinho, esposo, pai, avô, bisavô, agente social, cidadão, parceiro, que uniu os grandes elementos de sagração à vida!

Do CÉU: contemplou o tempo, o vento, a chuva, o Sol, a Lua, as estrelas, o vôo de pássaros, pipas e aviões.

Da TERRA: escavou, plantou, regou, colheu, reparou, comeu, nutriu corpo e mente a se encantar e harmonizar com a Natureza em brilhos, cores, formas, fortaleza e beleza de pedras, árvores, flores, frutos, seres de corações, cérebros e almas bondosas, corajosas, humanas e cuidadosas uns com os outros.

Do FOGO usastes a magia, a alquimia da fundição dos elementos naturais em peças de valor arte, beleza, utilidade, a confortar o lar, a enfeitar o corpo, a reavivar espaços em movimentos de vida.

Da ÁGUA, a procurou e reservou, na forma doce ou salobra, em rios, aguadas, poços, cachoeiras, cacimbas, bicas, Caatinga adentro, Brasil afora, como fonte de vida!

Do AR que te deu a vida em 09 de Julho de 1933, e te ceifou em 29 de Janeiro de 2021, a dor da falta em ausência física, agora a se confortar na presença, eterna, de seu legado, imaterial, a sustentar os frutos do teu suor, em sementes de vidas.

Do AMOR à vida, às pessoas, animais, à arte em cinema, música, arquitetura, artesanato, construções, escultura, pintura, fotografia, viagem, fica sua marca do bom gosto, alegria natural do saber fazer, cuidar, sentir, em expressão profunda de vida!

E como o verde sempre foi sua cor, a esperança da Renovação em sopros para espaços sagrados de ReCriação!

Liliana Peixinho – Jornalista, ativista humanitária. Especializações em Jornalismo Científico, Meio Ambiente, Cultura, Sustentabilidade – Ufba. MBA em Turismo e Hotelaria Sustentável Comunitário. Fundadora de mídias em defesa do ambiente vida e direitos humanos, como: Movimento AMA, O Outro no Eu, Cuidar do Cuidador, Reaja, Mídia Orgânica, Rama, Catadora de Sonhos. Cuidadora do seu pai, com Alzheimer, de julho de 2016 a Agosto de 2019. Entusiasta do modo de vida simples, Francisco.

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