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História apagada: novo Largo da Calçada exclui monumentos em homenagem a Lauro de Freitas

Obras de expansão da linha do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em direção ao Comércio também ameaça fortificação militar do Século 16; intervenção do Governo da Bahia na região promove melhorias urbanísticas no entorno da histórica Estação Calçada

Largo da Calçada (Reprodução)

Por Wagner Ferreira – Após a demolição do antigo Clube da Cruz Vermelha, em Salvador, no mês de junho, para dar lugar a uma estação do metrô no bairro do Campo Grande, o alvo, agora, parece ser os monumentos em homenagem a Lauro de Freitas e aos operários da linha férrea, no Largo da Calçada.

A Companhia de Transportes do Estado da Bahia (CTB), que entregou, no dia 15 de setembro, o novo Largo da Calçada, mas sem os tradicionais monumentos em Salvador. De acordo com a CTB, a intervenção integra as obras de implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e promoveu melhorias urbanísticas no entorno da histórica Estação Calçada, incluindo ações de drenagem para prevenção de alagamentos e novas estruturas para o comércio popular da região.

Atual Largo da Calçada e Estação de trem da Calçada (Foto: Anderson Fonseca/GOVBA)

Procurada, a CTB não respondeu o motivo da retirada dos monumentos e a sua possível recolocação. No caminho do VLT, que pretende seguir até o bairro do Comércio, está mais um edifício histórico, o Forte de Santo Alberto (Forte da Lagartixa). A edificação militar, que é uma das mais antigas de Salvador, está localizada na região de Água de Meninos, às margens da Avenida Jequitaia, em frente ao Terminal de Ferry Boat.

Expansão do VLT até o Comércio ameaça Forte da Lagartixa (Reprodução)

O forte foi construído entre 1590 e 1610 e tinha a função de proteger a faixa litorânea de Água de Meninos auxiliar na defesa do acesso marítimo à cidade de Salvador. No outro extremo da linha, o governo avalia a ida do transporte até a cidade de Alagoinhas, ironicamente, a cidade onde nasceu Lauro de Freitas.

O Forte da Lagartixa, que remonta aos primeiros anos de fundação da primeira capital do Brasil, pode ser sumariamente removido das pretensões do governo Jerônimo Rodrigues (PT).

Palacete do Século 19 derrubado

O palacete do Século 19, colocado no chão no Campo Grandes, abrigava a Fundação João Fernandes da Cunha que, apesar de não ser tombado, havia a esperança de ser poupado devido a sua beleza arquitetônica, que dialogava com outros imóveis locais do mesmo período. O imóvel abrigava uma biblioteca com mais de 18 mil livros e recebia estudantes das redes pública e privada além de promover eventos culturais e acolher entidades como a Academia Baiana de Educação (ABE) e o Grupo de Ação Cultural da Bahia (GACBA).

Quem foi Lauro de Freitas – O engenheiro e político baiano, Lauro Farani Pedreira de Freitas, nasceu em 15 de abril de 1901 no município baiano de Alagoinhas. Como engenheiro, ocupou vários cargos importantes, entre os quais o de superintendente da antiga Compagnie de Chemins de Fer Fédéraux de L’Est Brasilienne, que ingressou em 1922. Em julho de 1930, foi eleito Presidente da Assembléia Geral da Associação dos Empregados da Leste Brasileiro. Também presidiu a Caixa de Aposentadoria e Pensão dos Ferroviários da Bahia e Sergipe de 1931 a 1943. 

Lauro de Freitas [1901-1950] foi responsável pelo desenvolvimento do transporte ferroviário na Bahia (Reprodução)

De acordo com a pesquisadora, tradutora e escritora inglesa, Sabrina Gledhill os destaques de sua atuação na Leste Brasileiro incluem a construção e reconstrução de quase todas as estações, a construção de grandes açudes que abasteceram vários municípios; iluminação elétrica de muitas estações e as respectivas cidades; mil e quinhentas casas populares ao longo da ferrovia; grande número de casas de agentes e operários; a construção das pontes de Mapele e São João; e a duplicação da linha tronco. Também elaborou o plano de eletrificação da Leste, iniciado com a Usina de Cotegipe. Em 1938, a Leste implantou um avanço inédito no Brasil – a tração diesel elétrica, usando locomotivas English Electric. Construiu carros de alumínio em suas oficinas de Alagoinhas em 1938 e 1944 – considerado um avanço arrojado, uma vez que a maioria dos carros ferroviárias do país era feito de madeira.

Durante o Estado Novo, trabalhou no gabinete do Ministro da Viação e Obras Públicas, o gaúcho João de Mendonça Lima (1940). Foi levado à política durante o processo de redemocratização iniciado em 1945, ingressando no Partido Social Democrático – PSD, na chapa do Ministro de Guerra do Estado Novo, o também gaúcho Eurico Gaspar Dutra.

Atual Largo da Calçada onde ficavam os monumentos em homenagem a Lauro de Freitas e aos operários da linha férrea (Foto: Anderson Fonseca/GOVBA)

Nas eleições de 1945, foi eleito deputado federal pela legenda do PSD. Como deputado constituinte, concentrou-se na abordagem de questões referentes ao problema dos transportes ferroviários, apresentando ao Projeto de Constituição quatro emendas regulamentando a competência exclusiva da União para legislar no ramo ferroviário, inclusive a Emenda nº 2.981, determinando que, pelo menos, 3% da receita tributária da União deveriam ser investidos na execução de um Plano Geral de Viação.

Foi nomeado superintendente da Cia. Ferroviária do Leste Brasileiro em 1934, em substituição do Engenheiro Oscar Taylor. Depois da nacionalização da ferrovia pelo Governo Federal, foi diretor da V.F.F. (Viação Férrea Federal) Leste Brasileiro durante o Estado Novo (1937-1945), estagiou em várias fábricas alemãs, francesas e suíças. Passou quatro meses na Europa em 1939, comprando peças de aço para a ferrovia, sendo obrigado a retornar quando eclodiu a Segunda Guerra.

Em 1950, embarcou numa nova campanha para governador do Estado da Bahia como candidato do PSD, respaldado pela Coligação Baiana formada pelo PSD, a Ala Autonomista da UDN, o PRP, o PST, o PR e o PTB, inclusive com  apoio declarado de Getúlio Vargas, cujo aval teria garantido sua eleição.

Morte – Faleceu num acidente aéreo a 11 de setembro de 1950, em plena campanha, junto com o piloto, Guilherme de Castro, e o deputado estadual Gercino Coelho, pai do ex-governador da Bahia, Nilo Coelho. Luis Régis Pacheco Pereira lhe sucedeu na candidatura ao Governo do Estado, concorrendo contra o ex-governador Juraci Magalhães, candidato da UDN e venceu as eleições. Propagaram-se acusações de sabotagem e foi instaurado um inquérito, mas a desastre foi julgado como acidente. Segundo um dos cinco filhos de Lauro de Freitas, o também engenheiro, Francisco Pedreira de Freitas (1932–2018), a família de Lauro de Freitas nunca acreditou que Juraci Magalhães tivesse “mandado colocar açúcar na gasolina do avião” conforme as acusações de seus adversários políticos.

Foi agraciado com várias condecorações, dentre elas: Medalhas do Mérito Naval, Medalha do Mérito Militar e a Medalha do Cinqüentenário da República. Foi membro da Associação de Engenheiros Civis da Bahia, do Clube de Engenharia do Brasil, do Sindicato de Engenheiros da Bahia, da Association du Génie Civil de Paris, do Instituto de Organização Racional do Trabalho de São Paulo e membro honorário da Associação dos Empregados da Leste Brasileiro e da Associação Brasileira Ferroviária. Em 1962, o antigo distrito de Santo Amaro de Ipitanga foi emancipado pela Lei 1753/62 de 31.07.62 da Assembléia Legislativa e transformado no município de Lauro de Freitas.

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