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Cognições e escrita à mão

Saudades de receber cartas de minha mãe. Cartas escritas e enviadas, de mão em mão

Entrevista com anotações no papel (Foto: Movimento Ativista AMA)

Por Liliana Peixinho – Escrever à mão, confirma a Ciência, promove conexões de três redes neurais, ao mesmo tempo: motor, visual, cognitiva. O hipocampo = a área de memória. Mão no papel cria
“mapas” fortes, complexos. As escolas subestimam esses valores.

As cartas escritas por minha mãe, dona Iracema, em letras cursivas, bem legíveis, em mãos cuidadosas, é alimento de nutrir o Ser, inteiro, onde coração, cérebro, afeto, conectam histórias.
Em palavras claras, simples, diretas, bem escritas, sua letra revelava arte, amor, cuidado, carinho, compromisso, informações..

O amor no tratamento com as palavras era traduzido em atenção, confiança, presença, gestos que de longe, sentia sair do seu cérebro, passar pelo seu coração, chegar até suas mãos, dedos caprichosos, desde o pegar da caneta até a escrita de cada letrinha, cuidadosamente, em papel de caderno escolar, com linhas.

As cartas de minha mãe chegavam de mão em mão. Nas visitas de seu irmão, Daltro, que viajava mais de mil quilômetros, do Cerrado de Barreiras, oeste da Bahia, para estar com ela, na Caatinga, zona rural de Senhor do Bonfim, norte da Bahia. Esse meu tio já sabia que tinha que avisá-la com antecedência, sobre o seu retorno, dia antes, pois as cartas, para a família, exigiria tempo para ela escrever a vários familiares.

Assim, aprendi, com minha mãe, o valor da escrita à mão. Numa fase difícil de nossas vidas, eu mandava cartas, junto às sacolas com alimentos que ela gostava de saborear. O mundo mudou, a comunicação criou ruídos, e do vai e vem de cartas, mão a mão, fez-se silêncio. Agora eterno.

Quando meu neto começou a sentir a potência das mãos, ainda bebê, para segurar uma fruta, para movimentar um brinquedo, para segurar uma colher, um copo, para se apoiar no chão, para segurar um galhinho em flor, para guardar uma moedinha no porquinho de barro, o olhar e o fazer de avó focava essa diversa potência das mãos como instrumento de vida.

Meus presentinhos de vó sempre foram de coisas que dão potência ao uso das mãos: frutas, lápis coloridos, giz de cera, massinha de modelar, telas de pintura com tintas e pincéis, livros para passar a página com as pontas dos dedinhos (e ensinava ele a arte do tocar os cantos das páginas para virar uma a uma, sem amassar), no propósito da descoberta do sentir essa potência, em cognições lúdicas, prazerosas, educativas.

Mãos para sentir Mãos para abraçar, acarinhar, cuidar, se limpar, organizar o ambiente vida. As roupinhas que eu lavava, com ele do lado,
‘ajudando”, logo que secavam no varal, ensinava ele a usar a potência das mãos, para ajudar a dobrar, guardar cada peça, separada, nas gavetinhas próprias, para facilitar o dia a dia.

Quando meu neto começou a ter curiosidade sobre o uso das teclas digitais, falei que um precioso presente de Natal poderia ser uma cartinha escrita à mão, sobre as férias escolares.

Escrevo mensagens, de caneta, no papel, e coloco junto às coisinhas que sempre envio para ele. Às vezes pergunto se ele leu, se entendeu a escrita. Com toda a verdade e pureza de criança, ele diz que minha letra é um pouco confusa. E olha que tento caprichar. Mas, sei que a pressa de anotar dados, em décadas de jornalismo que sempre primou por escrever no papel, de forma orgânica, na hora da entrevista, ou em campo investigativo, para, só depois, repassar via novas tecnologias, essa prática diária apressada, de décadas, fez minha letra seguir caminhos diferentes no jeito de grafar. E olha que tento, nas escritas ao meu neto, grafar a melhor e mais legível letra possível, para estimular a leitura. Se erro, não deixo rasuras, reescrevo o texto duas, três vezes. E guardo os rascunhos como memórias.

Valorizar a potência das mãos, dos dedos, em cérebro conectado às curiosidades tecnológicas, amplia nosso conhecimento. Por exemplo, numa pesquisa rápida em plataforma IA fiz a seguinte pergunta:

“Qual a importância da escrita à mão para o cérebro, para potência das conexões da vida?”

Observe a resposta:

Escrever à mão é academia pro cérebro.* E não é papo de vovó não — é neurociência.

Mãos e cognições educativas lúdicas (Foto: Movimento Ativista AMA)

1. O que acontece no cérebro quando você pega a caneta

Sistema ativado Por que importa
Motor + Visual + Cognitivo Escrever à mão liga 3 redes neurais ao mesmo tempo. Digitar só liga 1. Por isso você lembra mais do que anota no caderno
Hipocampo Área da memória. Mão no papel cria “mapas” mais fortes. Aluno que escreve à mão tira nota maior em prova 1 semana depois
Córtex pré-frontal Foco e planejamento. O esforço de desenhar cada letra obriga o cérebro a filtrar o que importa. Você não copia, você processa
Sistema de Ativação Reticular A pressão da caneta no papel acorda o cérebro. Te tira do modo automático e coloca em estado de atenção plena

2. A potência pra vida, na prática

  1. Memória que cola
    Universidade de Princeton: quem anota à mão entende conceitos complexos 29% melhor que quem digita. Porque você é obrigado a resumir com suas palavras, não transcrever
  2. Criatividade destravada
    Escrever à mão desacelera o pensamento pra 22 palavras/min. Digitar vai pra 60. Essa lentidão força conexões novas. É por isso que roteirista, montador e diretor ainda rabiscam ideia antes de abrir o Final Cut.
  3. Controle emocional
    Journaling à mão reduz ansiedade em 28% segundo estudo da Cambridge. O ato físico de escrever organiza o caos mental. É terapia que não precisa de app
  4. Identidade e presença
    Sua letra é sua digital. Nenhuma fonte Montserrat replica. Num mundo de Ctrl+C Ctrl+V, a caligrafia é o último reduto do “eu fiz”.

Bottom line: Teclado é velocidade. Mão é profundidade.
Quem quer só produzir, digita. Quem quer deixar legado, escreve.

  • Liliana Peixinho-Jornalista, ativista humanitária, pesquisadora independente.
    Especialização em Jornalismo Científico e Tecnológico; Mídia, Meio Ambiente; Responsabilidade Social. MBA em Hotelaria e Turismo Sustentável.
    Fundadora de mídias independentes: Movimento AMA- Amigos do Meio Ambiente, Mídia Orgânica, Reaja, Catadora de Sonhos, Cuidar de quem cuidou, Rama- Rede de Articulação e Mobilização Ambiental, O outro no eu.

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