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ENTREVISTA: Jorge Almeida. Há mesmo uma base militar da China no Brasil? Cientista político fala sobre a atuação de agentes estrangeiros em solo brasileiro

Após o Congresso dos Estados Unidos divulgar um relatório, em fevereiro, que acusa o Brasil e outros países da Latino-americanos, de possuírem bases militares secretas da China, o assunto parece ter desenhado um alvo na direção dos brasileiros, em especial na cabeça dos soteropolitanos. Salvador aparece no documento como uma das cidades que abrigam filiais bélicas do país asiático. Mas segundo o pesquisador e professor de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Jorge Almeida, não há motivo para pânico.

Nesta entrevista, concedida com exclusividade ao Comunicarmais, Almeida explica ao jornalista Wagner Ferreira, algumas das intenções do governo norte-americano em tentar barrar a influência da China na América Latina.

Wagner Ferreira: Professor, a acusação vinda dos Estados Unidos não tem origem de uma fala isolada Trump, mas de um relatório do Congresso norte-americano, ou seja, elaborado tanto por republicanos, quanto por democratas, que dizem haver essa tal base por aqui, que na verdade deve ser mesmo um escritório e não uma base militar convencional, concorda?

Jorge Almeida – É um escritório que faz essas leituras. Na verdade, isso é coisa da CIA, né? O Congresso não investigou nada. Isso aí foi a CIA que passou as informações. O Congresso só avalizou. Eles fazem uma comissão, mas quem é que vai realmente investigar isso para tirar as informações é a CIA.

Quem está em campo são os agentes. E eles que levantaram as informações sobre as supostas bases da China em vários países da América do Sul. Já se sabe que eles têm atuado fortemente com obras de infraestrutura, como aqui no interior da Bahia na construção de ferrovias, por exemplo.

Enfim, eles já se sabiam disso. Agora querem direcionar para a questão militar, mas são análises de satélites feitas para fins inicialmente científicos.

Wagner Ferreira: O que garante que as Forças Armadas da China não irão pegar esses dados e utilizar para fins militares? Uma vez que as informações de satélites mostram bases militares, movimentação de tropas que podem ser facilmente repassadas para o staff militar chinês, e é em cima desta dupla utilização que o governo dos Estados Unidos justifica o seu relatório.

Jorge Almeida – Primeiro, como você falou, não é base militar. O critério de base militar que eles usam é amplíssimo. Significa que se tiver uma pessoa fazendo informação e contra a informação, espionagem, vira uma base militar. Então, não é base militar. A China tem, formalmente, duas bases militares fora do seu território.

Uma é num país chamado Djibuti, que fica no nordeste da África, um país vizinho da Etiópia e da Eritreia, a partir de um acordo com o país. E a outra, é uma base militar que a China ocupou nas ilhas de recife, ou Ilhas Spratly e Paracel. Portanto, eram ilhas inabitadas. Que tem no mar do sul da China. Trata-se de uma área em disputa entre a China, Vietnã, Tailândia e Filipinas; vários países reivindicavam essas ilhas. E, depois de muito tempo de negociação, a China foi lá e ocupou militarmente com uma grande base lá.

Então, formalmente, são essas as duas bases chinesas fora do seu território. Esse trabalho que está sendo feito pela China, pelo que foi informado aí, não sei exatamente o que aconteceu, mas, pela informação que está sendo feita, é uma parceria de observação espacial. É possível que exista um trabalho de informação e contra-informação, de espionagem internacional e mesmo nacional? É, porque hoje toda a tecnologia aeroespacial tem utilização híbrida.

Ou seja, aquilo que é feito com fins militares pode ser usado para fins civis, e vice-versa. Não só na área espacial. Toda a tecnologia avançada, não é de hoje, é de muito tempo.

Desde os tempos históricos é assim. O rádio que a gente ouve surgiu assim. A internet foi uma iniciativa militar dos Estados Unidos. A pólvora foi inventada pela China para fazer fogos de artifício e por aí vai. Então, sempre houve esse tipo de utilização. E se você for considerar que a presença de pessoas formalmente são de técnicos e, eventualmente, com relações militares, fazendo um serviço de espionagem como uma base militar, todas as grandes potências teriam bases militares no mundo todo.

Wagner Ferreira: Então estamos cercados de espiões?

Jorge Almeida – Sim. Porque todas as grandes potências têm agentes infiltrados em todos os países, junto às suas embaixadas, os adidos militares, que têm justamente essa função, digamos assim, de fazer as relações militares entre os países. E que, na maioria dos casos das grandes potências, esses esquemas são utilizados para levantamento de informações contra informações. E não é, evidentemente, só a China que faz isso.

Os Estados Unidos fazem muito mais. Outros países europeus fazem e a Rússia faz. Cada um, pelo menos, nas suas áreas de interesse.

Ademais, quando qualquer país promove relações diplomáticas, relações culturais, incentiva ONGs, diversos etc., sempre existe espionagem nessas coisas. E, mais uma vez, o principal é os Estados Unidos. Posso levantar o que tem no Brasil de instituições que podem estar a serviço de informação contra informação, espionagem dos Estados Unidos.

A China só tem duas bases fora do seu território, mas muitos agentes espalhados pelo mundo”, Jorge Almeida (Arquivo pessoal)

Wagner Ferreira: O escritório (A base) segundo o relatório, estaria localizada em Salvador funcionando com o nome de Ayla Space, uma empresa de satélites brasileira, mas é referida pelos EUA como “Tucano Ground”, por que?

Jorge Almeida – Tucano é o nome. Eles deram o nome de Tucano Ground, não se sabe ao certo porque. Mas tem muita gente falando que é a localização de uma antena. Talvez a antena esteja em Tucano, e o escritório administrativo sediado em Salvador. Porque eu também achei que era no interior do Estado.

Não tinha como ser em Salvador, por conta das ações que a China tem no interior. Nessa região, justamente. No caso, é melhor evitar localizar exatamente onde está, porque, realmente, isso é uma coisa que não está clara.

Então, tudo isso aí está partindo de uma hipótese, como eu estou dizendo. Digamos que exista, realmente, se a empresa esteja fazendo esse serviço, seja em Salvador, Tucano ou qualquer outro lugar do Brasil. É sabido que a China tem uma parceria de investigação de produção de satélites no Brasil desde a década de 1980.

Wagner Ferreira: Pode chamar essa parceria do Brasil com a China de a “Nova Rota da Seda”?

Jorge Almeida – Não. Isso aí que eu estou falando, desses satélites, vem desde a época do regime militar. Porque os Estados Unidos recusaram-se a fazer isso, uma parceria, porque não queriam que o Brasil avançasse nessa área de satélite. E o Brasil encontrou a China naquela época. Da mesma forma que, na área nuclear, o Brasil foi fazer as usinas nucleares junto com a Alemanha, porque o Brasil e os Estados Unidos também não queriam. Isso na época do regime militar.

Então, existem realmente essas coisas. E, evidentemente, pode estar existindo esse trabalho de informação contra informação. A China só tem duas bases fora do seu território, mas muitos agentes espalhados pelo mundo.

Wagner Ferreira: Os Estados Unidos se sentem ameaçados com a perda da sua influência sobre os países latino-americanos para a China?

Jorge Almeida – Sim. Há uma preocupação com os países da América do Sul, que é justamente uma área que agora o governo Trump está dando ênfase para recuperar o espaço político e econômico que estava perdendo para a China.

Porque a principal parceira econômica, tanto de importação, como exportações, em média, da maioria dos países, em média dos países da América do Sul, é a China. E, na América Latina, a China fica em segundo lugar na média geral por conta do México, que está ali colado com os Estados Unidos. E, portanto, o grosso das relações comerciais do México é com os EUA, e isso desequilibra a média da América Latina.

Mas, se excluir o México, é a China que é o principal parceiro. Então, essas acusações também têm a ver, estão relacionadas a isso que eu chamo de bipolarização interimperialista e como isso está acontecendo aqui. Então, essas acusações, o sequestro de Maduro na Venezuela, esse cerco que está sendo feito em Cuba, tudo isso tem a ver com essa é uma nova política que os Estados Unidos querem para dizer que é o mantenedor aqui das Américas.

Wagner Ferreira: A gente sabe que o governo brasileiro é alinhado ideologicamente com a China, a Rússia e, de certa forma, até com o Irã. Do outro lado, Trump cobra um posicionamento do governo brasileiro. O governo norte-americano recuou com o tarifaço depois de descobrir que Bolsonaro não era o “homem deles”. Como é que fica daqui pra frente com a deflagração do conflito no Oriente Médio?

Jorge Almeida – Acho que a política geral do Brasil é de ser amigo de todo mundo. Não acho que o Brasil seja um aliado no sentido de fazer uma opção de um lado ou de outro por política.

Ao contrário. O governo Lula é um governo que não se define de forma muito clara em relação a isso. Apesar de que o Brasil está nos Brics junto com a Rússia, a China, a Índia, a África do Sul, o Irã e outros países que entraram lá.

Nem todos são exatamente aliados da China. A Índia, por exemplo, o principal problema da Índia é com a China, o principal adversário entre eles. Então, o Brics não é nenhum tratado econômico, não é um bloco econômico, não é um tratado econômico, não é uma área de livre comércio entre os países muito menos militar. Não existe nada no Brics que tenha a ver com isso. O Brasil não tem nenhum tratado militar com a China que seja privilegiado, por exemplo, em relação aos Estados Unidos.

O que acontece, do ponto de vista econômico, é que, realmente, o Brasil é um país que tem como principal fonte de exportação bens primários que interessam à China. E a China, evidentemente, estimula isso. E a China oferece mercadorias industrializadas a preços mais baratos que os países europeus e que os Estados Unidos.

Os Estados Unidos são grandes exportadores de coisas que o Brasil também é, como soja. O maior exportador de soja do mundo disputa o Brasil e a China. O Brasil e os Estados Unidos, ambos eram grandes exportadores para a China.

Hoje, está diminuindo por conta das iniciativas mais dos Estados Unidos, na verdade, do que da China. Então, essas atitudes que Trump tem tomado, a meu ver, até agora, são um tiro na água. Porque, na verdade, ele está procurando cercar tudo isso, Venezuela e o Irã, etc. O Irã não é somente uma guerra contra o Irã, nem Israel contra o Irã. O Irã está ali no meio do caminho entre os Estados Unidos e a China, porque o Irã é um parceiro importante da China.

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Wagner Ferreira é jornalista, editor-chefe do site Comunicarmais e especialista em Jornalismo Científico e Tecnológico pela Ufba

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