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“Não é não” literário, como valor de direitos humanos

Por Liliana Peixinho – Denúncias sobre violência, atentados diários à vida de crianças, idosos , trabalhadores, mulheres, (“feminicídio”) é pauta diária, constante, na imprensa, toda ela, das mais antigas e tradicionais, às mais modernas e céleres em espalhar notícias, planeta afora.

E vem uma pergunta: por que temos a sensação, a percepção de que na realidade, sentimos muito medo diante de cenários onde há aumento, e não redução, de casos, e a cada dia, mais violentos? Onde e como a forma de comunicação falha, não sensibiliza, não promove a consciência coletiva?

Sob análises diversas, seja na Psicologia, na Política, na Economia, na Educação, na Segurança pública, na Religião ou não, no comportamento doméstico. Fato é que valores como respeito e liberdade, a si, e ao outro, estão em falta para garantir direito milenares básicos, como dignidade, tranquilidade, segurança no ambiente de vida.

Literatura como caminho?

Ao ler o poema “Não é não”, do confrade, professor e escritor João Carrilho, penso que a literatura, a poesia, a escrita poderia ser caminho potente para a sensibilidade humana, para tocar o Ser profundo.
A sonoridade e simplicidade das frases do poema, ‘Não é não”, por exemplo, toca o Ser humano, inteiro, atento, como potência do respeito à liberdade do Ser, nas relações sociais, em xeque, em guerra, mundo afora.

“Não é não”.

“Êêê…Escuta essa mensagem, irmão…
Respeito é a chave,
amor não é prisão.

Não insista, procure outra,
se ela não quer, é não.
Seja homem, respeite a decisão do coração.

Se ela não quer mais você,
então é hora de partir,
deixa ela seguir sua vida,
deixa ela ser feliz.

Não seja homem misógino,
não seja um animal.
Homem de verdade respeita,
não faz ninguém passar mal.

Não é não!
Não insista, desista!
Respeita a decisão das mulheres.
Não é não!

Deixa ela em paz!
Quem ama não maltrata,
quem ama não mata jamais.

Se insistir, você vai se dar mal,
porque respeito é fundamental.
Feminicídio é crime,
violência não é amor.

Nenhuma mulher pertence a ninguém,
ninguém é dono de ninguém,
não senhor!

Por amor, não se mata,
por amor, não se agride.
Quem ama cuida,
quem ama não oprime.

Liberdade é direito,
respeito é obrigação.
Cada mulher tem sua escolha,
seu caminho e decisão.

Êêê… não é não…Respeito, irmão!
Êêê… deixa ela viver…
Amor de verdade
não faz ninguém sofrer.

Não insista… desista.
Quem ama não maltrata.
Por amor, não se mata.
Não é não!

Autor: Professor, escritor João Carrilho.

“Não é não” é um poema-manifesto de ativação de Direitos Humanos. Ele não é para ser lido em silêncio – é para ser gritado, cantado, como sugere o autor: “Êêê… escuta irmão”.
Poderia ser inserido em três tradições literárias muito claras da literatura de respeito aos Direitos Humanos, como Literatura de Cordel, Literatura de Protesto, A Oralidade que Educa. Observe o refrão, repetição e vocativo direto – “Escuta, irmão” / “Respeita, irmão” – é Literatura de Cordel e Repente. É um
Diálogo direto com: Patativa do Assaré e Thiago de Mello: Thiago, no “Faz escuro mas eu canto”, usava a mesma métrica simples para ensinar direito humano a quem não lê código penal. O “Não é não!” é um novo estatuto masculino. Bráulio Bessa e Jarid Arraes: atualmente a literatura de cordel feminista faz exatamente isso: transformar Lei Maria da Penha em verso para que entre na cabeça do interior. É poema de cordel jurídico.

Cordel jurídico E funciona? É um caminho porque o agressor não lê artigo de lei, mas ouve música no bar, traduz o art. 5º da Constituição – “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano” – para linguagem de rua. Tem ponte com ” Escrevivência Feminista Negra – O Corpo como Território de Direito você diz “Nenhuma mulher pertence a ninguém/ninguém é dono de ninguém” e “Quem ama não mata jamais”. Frases que estão no centro da literatura feminista de Direitos Humanos. “Não é não”,faz diálogo direto com a escritora Conceição Evaristo- Escrevivência. Em “Eu-Mulher”, ela diz “a gente combinamos de não morrer”. Assim , também, traduz esse direito, o escritor João Carrilho, na frase: “deixa ela viver”, é a mesma combinação de sobrevivência. Maya Angelou (Still I Rise) e Audre Lorde: A afirmação do corpo que se recusa a ser propriedade. “Liberdade é direito, respeito é obrigação” é a síntese de Audre Lorde: “Cuidar de mim mesma não é auto-indulgência, é auto-preservação”. Elisa Lucinda e Mel Duarte (Slam das Minas): “Não é não” é poema feito para ser falado em praça pública, com a mão no peito. É poesia falada como instrumento de denúncia de violência.

Literatura denúncia O verso “Por amor, não se mata” desmonta 500 anos de literatura romântica patriarcal – do José de Alencar ao sertanejo sofrência – que romantizou o crime passional como prova de amor. Na proposta de Pedagogia Filosófica, como Jornalista, Ativista humanitária, admiradora da simplicidade revolucionária franciscana, o espaco virtual chamado o “Outro no Eu”, é também caminho de construção de ideias e escritas dessa jornalista.

Onde o poema do professor João Carrilho se encontra com a proposta de pesquisa acadêmica: “Proativismo Jornalístico Socioambietal X Discurso Insustentável- Greenwashing”? O encontro está exatamente no discurso. Quando alguém diz “matei por amor”. É o “amor”, fazendo greenwashing do afeto: pinta de amor o que é controle, posse, violência. É o discurso insustentável aplicado à violência contra o outro.

Observa-se também, um diálogo direto com autores como Paulo Freire (Pedagogia do Oprimido) e Bell Hooks (O Amor como Prática da Liberdade): “O amor não pode existir onde há dominação”. Pensamento reforçado nos versos do poeta João Carrilho, “Quem ama cuida, quem ama não oprime”.

Vemos também, conexões com a escritora Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de Despejo”, quando ela já denunciava: “O homem que não respeita a mulher, não respeita a própria mãe”.
No poema musical do professor João, “Não é não”, a frase “Não seja homem misógino, não seja um animal / Homem de verdade respeita”, é uma línguagem atualizada de Cora Coralina. É a ideia de que respeito é o feijão com arroz da vida , “respeito é fundamental”, “respeito é obrigação”. Direitos humanos não são luxo, são base.

Simplicidade direta A simplicidade básica de “Não é não”, se coloca como Poema-denúncia, num gênero focado em Direitos Humanos de base ativista, com função pedagógica-preventiva do feminicídio, inserido na tradição do cordel de enfrentamento à violência de gênero e da escrevivência de luta por direitos

Do ponto de vista do Direito, o “Não é não”, operacionaliza o Art. 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos – “Todos nascem livres e iguais em dignidade” – e a Lei 11.340/2006 – Maria da Penha.
“Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem” – Thiago de Mello. E verso “Nenhuma mulher pertence a ninguém, não senhor!”, seria o ultimato a qualquer tentativa de transgressão à liberdade.

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  • Liliana Peixinho é Jornalista, ativista humanitária, pesquisadora independente.
    Especialização em Jornalismo Científico, Cultura e Ambiente. Comunicação e Novas Tecnologias. Mídia, Meio Ambiente e Responsabilidade Social. MBA em Hotelaria e Turismo Sustentável.
    Fundadora de mídias independentes: Movimento AMA- Amigos do Ambiente, Mídia Orgânica, Reaja, Catadora de Sonhos, Cuidar de quem cuidou, Rama- Rede de Articulação e Mobilização Ambiental, O outro no eu. Membro da equipe fundadora da Academia de Letras de Senhor do Bonfim.

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