Memórias, desafios, sonhos de uma vida realizada

Por Liliana Peixinho – Sabe aquela história em que um jovem, bem educado e proativo em casa, se muda do interior para estudar e trabalhar na capital, e depois de décadas de dedicação, esse empenho resulta numa vida de orgulho para a família e a cidade? Assim aconteceu com Carlos Alberto Neves da Silva. Recentemente, aos 66 anos, lançou livro de memórias contando sua história desde a infância.
Quando a vida é trilhada desde criança, em casa, na escola, na vizinhança, em outras cidades longe do berço natal, sob valores coletivos, com busca do conhecimento como instrumento potente de mobilização e ação social, as memórias fortalecem a vida, em caminhos diversos.
Leitor, público, testemunhas
É um prazer revermos histórias onde, muitas testemunhas, como a então estudante, lá dos anos 70, pode compartilhar memórias comuns de vida como o “Teste de Admissão, lembranças da adolescência com ex-vizinhos, como Lourivaldo Almeida e sua família, lá na rua Barão de Cotegipe; as aulas de educação física com o professor, Sargento Estevam; as lembranças do autor sobre o Hotel e Restaurante Pedras Preciosas de “seu Peixinho”, na rua Rui Barbosa; e saber que, muitas dessas pessoas, hoje empresários, representantes de coletivos sociais, professores, integram instituições como a ACLASB – Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim, a exemplo dos professores João Carrilho, Leonor Bartilotti, Jackson Santana, dentre muitos outros, contemporâneas desse legado memorial.
Transformar experiências simples da vida cotidiana, em escrita de línguagem acessível, com pitadas de humor, beleza, poesia, em olhar detalhado sobre o cenário, faz da crônica um gênero literário muito apreciado, utilizado por escritores como Clarice Lispector, Fernando Sabino, Rubem Braga, Luís Fernando Veríssimo. A crônica encanta porque o escritor escreve como se estivesse conversando com o leitor. Tem uma aproximação que credencia a história.
No livro “Antologia Cronológica- Minhas Memórias”, lançado no último dia 10 de julho, no auditório do Novo Leste Hotel, em Senhor do Bonfim, terra natal, o professor, Coronel, Carlos Alberto Neves da Silva, foi surpreendido por um público diverso, testemunho de sua trajetória de vida. As lembranças, de tempo e espaço, emocionaram os participantes do evento.

Tempo compartilhado – Aos 66 anos de idade, e depois de 40 anos na PMBA, o Coronel entrou na reserva em maio de 2021. Nesse tempo, o doce, leal, e cidadão de referência em compromisso coletivo, depois de uma trajetória onde alcançou o mais alto grau na corporação Militar, Carlos Alberto Neves da Silva concretizou mais um sonho: a publicação de suas memórias.
Uma cronologia histórica de vida compartilhada por muitas gerações, entre famílias, amigos, companheiros de trabalho, equipes esportivas, colegas de estudos, turmas de brincadeiras nas ruas, alunos e públicos diversos, Brasil afora.
O livro, conforme o autor, retrata “fragmentos de uma vida real, com sonhos, lutas, conquistas, momentos simples onde o tempo revelaria toda a sua grandeza. A crônica tem essa natureza singular, ela não busca apenas contar o que aconteceu, mas também revelar como cada acontecimento ressoa no leitor”.

A mudança para a capital
O então jovem Carlos Alberto, terminara o ginásio no final de 1976, aos 16 anos, e como em Senhor do Bonfim só tinha o Colégio Estadual com o curso científico, o caminho de tradição das famílias do interior, fora estudar em Salvador, como assim aínda fazem, na perspectiva de se preparar para novas oportunidades de vida.
Novos desafios – “Minha ida para Salvador foi um processo doloroso, um misto de alegria e tristeza, por ter que me separar de meus pais, irmãs, meus amigos em Bonfim e morar em uma capital, longe de casa, e com pessoas desconhecidas, um mundo totalmente diferente daquele em nossa terra”, relata o autor, e segue.
“A cada dia que se aproximava da viagem, meu coração apertava e era tomado por uma imensa nostalgia. Até que chegou a data da partida.
Naquele dia, uma sexta-feira, acordei cedo e passei a manhã arrumando a mala. À tarde, fui até a barbearia do Senhor José Agnaldo Alves de Souza, conhecido por “Zé de Souza” cortar o cabelo, no padrão militar, pois, na segunda-feira, as aulas seriam iniciadas. A todo instante o coração disparava, rezava para hora não passar”.

Janela, passado, futuro
“Cumprimentei meus pais tomando a benção; adentrei ao ônibus e sentei em uma poltrona ao lado da janela. Lembro que não consegui dormir, à noite toda chorando com saudade, ao vir que a minha terra, a cada minuto, olhando pela janela do ônibus, ficava mais distante e suas luzes desapareciam na escuridão”, discorre o filho da terra.
O então, “Biriba”, carinhosamente chamado por amigos, levaria na bagagem ricas memórias como as do futebol, aos domingos, à tarde, ao lado do pai, no Estádio Dr. Pedro Amorim.
Realizadores de Cultura anos 70 nos rincões da Bahia
O cinema era novidade boa e potente nas cidades da região. Fruto de um movimento, nos anos 60/70, de promoção de culturas como música e cinema, sonhadores se uniram, para levar filmes, shows, espetáculos, de um Cine-teatro, para outro. Nessa época, o então soldado, “Seu Peixinho”, por exemplo, pedira “baixa” do quartel, em Juazeiro, para se dedicar à instalação de novas salas de projeção de filmes, em Juazeiro- Ipiranga, e nos rincões do Norte da Bahia, Caatinga adentro, como Carnaíba de Baixo e de Cima- Pinfobacu. Os rolos de filmes viajavam de trem, de carro, de ônibus e até em carroças, de cidade em cidade, em caixas pesadas de aço e couro, para exibição em sessões de matinês. Em Senhor do Bonfim, seu Rubens e família, manuseavam máquinas pesadas para levar entretenimento aos jovens, no Cine Teatro São José. Os filmes de ação, aventura, românticos, comédias, chanchadas, faroestes, clássicos cult italianos, mobilizavam a cidade toda, com cartazes dos filmes, expostos nas esquinas das ruas, para as matinês de domingo. Os apaixonados por Cinema e Música, por exemplo, como ” Seu Peixinho”, não media esforços para buscar e levar filmes de cidade em cidade e projetar, em cinemas que também tinha palco para shows de artistas vindos de diversos cantos do Brasil, para Senhor do Bonfim, onde seu Peixinho recebia diversos deles, no seu Hotel e Restaurante Pedras Preciosas, no centro da cidade, na rua Rui Barbosa. E vinha gente de todo lugar e até estrangeiros para Senhor do Bonfim e região. E tinha show de Luis Gonzaga, Agnaldo Timóteo, Waldick Soriano, Jerry Adriane. E tinha jogador de arte no futebol como Garrincha. Os anos 70/80, como memória de alto valor cultural.
O pai do jovem Carlos, por exemplo, garantia para o filho, o ingresso para o cinema onde lembra de assistir a filmes de aventura como Tarzan; faroeste, como Sete homens e um destino, Django-a volta do vingador, O dólar furado, por um punhado de Dólares; Três homens em conflito e Era uma vez no Oeste, entre outros.
“O dinheiro que meu pai deixava dava para pagar o cinema e comprar pipoca”, ressalta Carlos Alberto.
Brincadeiras de criança – As fases de criança e adolescência passadas nas ruas João Rodrigues, Cônego Hugo, Visconde do Rio Branco e praça Lauro de Freitas, eram brincadeiras de menino: jogar futebol na rua: jogar pião, seta, bolas de gude, empinar arraia, brincar de nego fujão, garrafão, bobinho e bola viradinha. Rotinas que seriam substituídas por novas atividades, na capital, onde, tempo e espaço exigiriam novos ritmos de vida.
Vida nova – O jovem “Biriba”, lembra que desembarcou às 5 horas da manhã em Salvador, ainda escuro, aguardou o dia clarear para tomar um táxi até a Baixa do Bonfim, próximo a Colina Sagrada – Igreja do Bonfim”.
Morou em casa de tia e depois foi residir no apartamento do Colégio da Polícia Militar, um tipo de república que acolhia alunos do CPM oriundos do interior.
A disciplina e compromisso com os sonhos foram impulsos para deslanchar uma carreira longa. Do CPM/Dendezeiros, em 1981, ingressou, através de concurso, no CFO-Curso de Formação de Oficiais na Academia de Policia Militar (APM) – Cel PM Antonio Medeiros de Azevedo, depois de um certame muito disputado e concorrido. Sua turma de 1983 -Ten Cel PM Oséas Moreira de Araújo, era composta por 26 alunos da Bahia e 10 do Rio Grande do Norte. Seus integrantes se destacaram na corporação, alcançando altos postos do oficialato e desempenhando relevantes funções dentro e fora da PMBA.
Nova remessa – Com uma tiragem pequena do livro o autor informa que está planejando uma nova remessa, para que o leitor, “em cada recordação registrada desperte reflexões, emoções e, sobretudo, o reconhecimento real de que a vida, com todos os seus caminhos, é sempre uma oportunidade única de crescimento, aprendizado e gratidão”.
Trajetória profissional – Promoções: 2º Tenente – 02 de julho de 1984-critério antiguidade; 1º Tenente-02 de julho de 1987 – critério antiguidade; Capitão-02 de julho de 1992-critério merecimento; Major- 27 de setembro de 2001 – critério merecimento; Tenente Coronel-14 de abril de 2010-critério merecimento e Coronel-29 de junho de 2017-critério merecimento.
Cursos – Introdução à Técnica de Ensino – PMBA; Inteligência (Coordenadoria de Missões Especiais)-PMBA; Gerenciamento de Crises para Oficiais Superiores-PMBA; Entorpecentes e Drogas Afins – Promovido pela Academia Nacional de Policia Federal-Brasília/DF; Adaptação e Operações na Caatinga – 72º BI Mtz-Petrolina/PE; Movimentação e Operações de Produtos Perigosos-MOOP; Voluntários de Emergência – Infraero; Gestão Pública e Lei de Responsabilidade Fiscal-Tribunal de Contas do Estado da Bahia; Atendimento Pré-Hospitalar (CIAPH) -Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco; Execução Orçamentária e Finanças Públicas – PMBA; Licitação e Contratos – Tribunal de Contas do Estado da Bahia; Gestão de Qualidade Total – PMBA
Especialização em Segurança Pública (CESP), pela Polícia Militar do Estado do Paraná-Academia Militar do Guatupê, em 1998; Bacharel em Administração de Empresas FACAPE -Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco/PE, ano de 1992.
Pós-graduação em Gestão Estratégica em Segurança Pública – CEGESP, pela Universidade do Estado da Bahia-UNEB/PMBA, ano 2012; e Inteligência Estratégica, pela Escola Superior de Guerra (ESG), Rio de Janeiro, ano 2014. Curso de Assessoria Parlamentar, promovido pela Força Invicta e Feneme/2022.
Destaques na corporação – Subcomandante do 9º Grupamento de Bombeio Militar-Juazeiro/BA; Subcomandante do 6º BPM-Senhor do Bonfim/BA; Subcomandante do 3º BPM-Juazeiro/BA; Comandante da 45ª Companhia Independente de Policia Militar–Curaçá/BA; Coordenador do Núcleo de Instrução e Operações Policiais Militares em Área de Caatinga-NIOPAC/3º BPM; Diretor do Colégio da Policia Militar Alfredo Vianna-Juazeiro/BA; Comandante do 20º BPM-Paulo Afonso/BA; Comandante do 3º Batalhão de Juazeiro; Comandante do CPRN (Comando de Policiamento Regional Norte); Subcomandante do COInt (Comando de Operações de Inteligência); Comandante do COInt; Diretor do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças-CFAP e Comandante da Academia da Policia Militar-APM. Comandante das três escolas da PMBA: CPM, CFAP e APM.
Condecorações – Medalhas de 10, 20 e 30 anos de bons serviços prestados (bronze, prata e ouro), respectivamente; Medalha Mérito Marechal Argolo – Visconde de Itaparica-PMBA (relevantes serviços prestados); Medalha “Amigo da Marinha do Brasil”-2º Distrito Naval, em Salvador; Medalha Pernambucana do Mérito Policial Militar-PMPE; Medalha Sergipana do Mérito Policial Militar – PMSE; Medalha do Mérito Policial Militar-PMBA; Medalha do Mérito de Inteligência Policial Militar-PMES; Medalha do Mérito do Colégio da Policia Militar da Bahia-(CPM Dendezeiros) e Comenda 2 de Julho -Concedida pela Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA).
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- Liliana Peixinho-Jornalista, com atuação em defesa de direitos.
Especialização em Jornalismo Científico, Cultura e Ambiente. Comunicação e Novas Tecnologias. Mídia, Meio Ambiente e Responsabilidade Social. MBA em Hotelaria e Turismo Sustentável.
Fundadora de mídias independentes: Movimento AMA- Amigos do Ambiente, Mídia Orgânica, Reaja, Catadora de Sonhos, Cuidar de quem cuidou, Rama- Rede de Articulação e Mobilização Ambiental, O outro no eu. Membro da equipe fundadora da Academia de Letras de Senhor do Bonfim – anos 90.
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