Conflito na Bahia não foi grito às margens de rio. Foi guerra de emboscada no Recôncavo, nas ilhas, no sertão

Por Liliana Peixinho – Enquanto o 7 de Setembro virou quadro de escola, o 2 de Julho ainda é poeira, fogo e gente na rua. É desfile, é sim. Mas antes disso é memória de quem pegou em arma sem farda.
A história oficial gosta de Dom Pedro, pomposo, no cavalo. Aqui na Bahia, a gente resgata outra história. E o 2 de Julho incomoda porque lembra que o Brasil se fez na ponta da faca, sem canhão, e com tocha de fogo como arma, na mão. Maria Felipa, marisqueira de Itaparica, tocou fogo nos navios portugueses com archotes e garrafas de cachaça.
Com pedaços de pau, ou cana, embebido com cachaça e aceso na ponta, queima por muito tempo, fazendo muita luz e fogo. Essa era a arma contra os canhões.
Maria Felipa e o grupo dela usaram essas tochas pra incendiar os navios portugueses em Itaparica. Jogavam os tochas dentro das embarcações, junto com garrafas de cachaça, que é inflamável, e freava o inimigo.
Na época não tinha luz elétrica. E era a tocha que o povo do campo, pescador e marisqueiro, agricultor, usava pra iluminar à noite, caçar, pescar e pra guerra de emboscada. Uma arma do povo sem canhão, com fogo na mão.

Guerreiros da independência – O 2 de Julho não foi feito só por general. Foi feito pelo povo trabalhador. Muita gente sem patente, sem sobrenome “de família”, mas com história de coragem. Alguns dos principais trabalhadores e nomes populares que pegaram em arma na Independência da Bahia foram:
Maria Felipa de Oliveira – Marisqueira e pescadora de Itaparica. Liderou um grupo que incendiou embarcações portuguesas com archotes e garrafas de cachaça. É a mais citada como “heroína do povo”. Maria Quitéria de Jesus – filha de fazendeiro do sertão, mas se alistou como soldado raso, cortando o cabelo e mentindo a idade. Virou cadete por bravura. Joana Angélica de Jesus – Freira e abadessa do Convento da Lapa, em Salvador. Foi morta a baionetadas em 1822 ao impedir a invasão das tropas portuguesas para proteger as órfãs.
Soldados, caboclos e gente do povo como: Luís Lopes-conhecido como “Caboclo”. Foi um dos líderes populares da resistência no interior. O nome “Caboclo” virou símbolo das tropas baianas. João das Botas – Marinheiro e pescador, comandante de embarcações que bloquearam o porto de Salvador. Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira – Professor e jornalista, mas atuou como capitão das forças populares. José de Sá Bittencourt Accioli – fazendeiro que armou e bancou tropas com homens do sertão.

Mobilização potente de ação
Os portugueses chamavam de “bárbaros” os grupos formados por Caboclos do Recôncavo, agricultores, pescadores, rendeiros; Negros e libertos: muitos escravizados que lutaram em troca da liberdade; Sertanejos: vaqueiros e lavradores que desceram pra costa
A guerra durou 1 ano e meio só na Bahia. Foi o maior contingente de pessoas mobilizadas. Mas os registros oficiais da época focavam nos oficiais portugueses e brasileiros de elite.
Quem ficou foi a memória oral: o “Caboclo”, a “Maria Felipa”, as “Marias” do convento. Maria Quitéria, que cortou o cabelo e mentiu a idade pra entrar no Exército. Joana Angélica, que morreu no Convento da Lapa defendendo as órfãs. Mulheres pretas, caboclas, sem diploma. Com terreiro, faca e coragem.
O conflito na Bahia não foi grito às margens de rio. Foi guerra de emboscada no Recôncavo, nas ilhas, no sertão. Foi gente comum decidindo que “nunca mais o despotismo regerá nossas ações”.

Palco político x ocupação de resistencia
Como palco político, o 2 de Julho é também usado como palco de exposição para marketing do faz de conta que faz. Como espaço democrático é ocupação popular com manifestações culturais de resistência e diversidade.
O 2 de Julho é símbolo de quem caminha nesse Brasil sem crachá corporativo. De quem observa a história em olhar sobre os desafios Sertão afora, Caatinga adentro, na seca, nos caminhos de poeira e pedra, com o povo sem holofote.
A Lei 12.819/2013 fez do 2 de Julho data histórica nacional. Mas lei não aquece memória. Quem aquece é a baiana que vende acarajé na Lapinha cantando o Hino ao 2 de Julho. É o caboclo da capoeira que ensina pro neto: “fomos nós que lutamos, e não o Rio; que fomos nós que morremos, e não o Rio”.
Independência, para a Bahia, não é passado de museu. É espírito coletivo, de educação contínua, de combate ao egoísmo. É a comunidade que não dorme, só cochila, para guardar o que a história oficial esqueceu.
O 2 de Julho incomoda porque lembra que Brasil se fez na ponta da faca, na maré de Itaparica, no canto das mulheres.
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- Liliana Peixinho – Jornalista, ativista, pesquisadora independente. Autora do livro: “Protagonismo Indígena Nordestino. (Em edição). Especialização em Jornalismo Científico e Tecnológico; Mídia, Meio Ambiente, Responsabilidade Social; MBA em Hotelaria e Turismo Sustentável. Ativista direitos humanos.
Fundadora de mídias independentes: Movimento AMA- Amigos do Ambiente, Mídia Orgânica, Reaja, Catadora de Sonhos, Cuidar de quem cuidou, Rama- Rede de Articulação e Mobilização Ambiental, O outro no eu.
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