Povos indígenas do nordeste brasileiro são símbolo de horizontalidade, com respeito ao outro, em experiência de voz ativa

Por Liliana Peixinho – Amo e tenho o maior respeito aos índios do Nordeste. Pela resiliência e resistência dignas; pelo encantamento, seriedade e leveza no ser, pelo compromisso de luta por seus direitos, negados, todo o tempo, o tempo todo; pela união e protagonismo em autosustentação, presenciados e vividos, em espaços ricos de convivência; e, principalmente, pelo saber cuidar, pelo repartir, pelo outro no eu, desde a conquista, de um peixe, ou terras, às rodas em danças e conversas. Símbolo de horizontalidade, com respeito ao outro, em experiência de voz ativa.
A sapiência indígena nordestina tem um ingrediente histórico que me dá arrepios em lembrar as origens, tanto quanto a dos não indios, e causa dor, espanto, indignação e claro, vontade de lutar, ir a campo, ver de perto e se arriscar, como eles, todos os dias, sem garantias, para garantir mais do que o presente, o futuro, que pertence a todos nós, inclusive aos criminosos, desumanizados.

Tive o privilégio de poder conviver com vários povos: Os Pataxós Hã Hã Hãe, foram os primeiros que conheci, ainda em 1979, em Caraivas, durante uma excursão antropológica com a pesquisadora Denise Ohana, lá no final dos anos 70. Depois vieram todos, de todo o Brasil e até do exterior, durante os eventos dos 500 anos do Brasil. Credenciada pela Folha do Meio Ambiente, junto ao Itamarati, cobri o evento, de ponta á ponta, de um lado a outro. E, pelo que vi, gritei ao mundo, em microfone aberto, ao vivo para a TV, que os indios estavam comendo peixe podre nas quentinhas, enquanto as “autoridades” comiam camarões fresquinhos, em ambiente de ostentação.
Depois vieram os Trukás, Tumbalalás e Tuxás, durante o plantão voluntário do Movimento AMA- Amigos do Meio Ambiente, durante a primeira greve de fome do Frei Dom Luis Cappio, contra a transposição e pela revitalização das águas do Velho Chico, em Cabrobó, Pernambuco, entre setembro e outubro de 2005. No tempo vieram os Payayás, Tupinambás Serra do Padeiro, Tupinambás Olivença, e, claro, os que estão mais perto da gente, como os Kaimbés e Kiriris, entre outros.

Um pouco da história de alguns povos;
Kiriris – Os kiriris formavam uma das muitas nações indígenas que habitavam o país. Significa: tristonho, calado, silencioso. No Nordeste destacamos algumas, segundo o historiador Capistrano de Abreu: Tupis-guaranis, Guaicurus, Nu-aruaques, Gês ou Tapuias, Caraíbas, Panos, Etias e Cariris ou Kiriris. Todas as denominações a que ouvimos falar são, portanto, ramos dessas nações.
A nação do kiriris se estendia do Paraguaçu, no Ceará ao Itapicuru, na Bahia, mais voltados ao interior, pois os tupis-guaranis, por serem mais poderosos e mais organizados tomavam conta de todo o litoral. Teriam chegado a essa região (do Paraguaçu ao Itapicuru) vindos do norte e do noroeste, em busca desses rios e de seus afluentes, principalmente até o São Francisco, pois eram lugares mais ajustados às condições de vida e de sua cultura neolítica.

O idioma se desdobrava em quatro dialetos: Kipeá, Dzubucuá, Camuru, Sabujá.
No Livro “Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil”, Capistrano de Abreu descreve os kiriris como valentes e de terrível resistência, talvez o de mais persistência que os portugueses encontraram. Para domá-los foi preciso que os atacassem de várias frentes, até bandeirantes paulistas tiveram que combatê-los.
Dizem que o maior combatente desse povo foi o poderoso sesmeiro Garcia d’Ávila, da Casa da Torre, que se apossou de um grande território, englobando as terras indígenas e provocando vários conflitos, como a “Confederação dos Cariris” , liquidada pelos colonizadores com brutal energia e falta de piedade humana. Manuel Correia de Andrade cita “(…) Após a expulsão dos holandeses os pernambucanos tiveram de destruir o Quilombo dos Palmares e liquidar a chamada Confederação dos Cariris.

Manutenção de culturas tradicionais
A Escola Municipal Professora Francisca Alice Costa, em Mirandela, município de Banzaê, na Aldeia Kiriri, passou para o estado, em 2008, com o novo nome de Escola Indígena José Zacarias, reconhecido índio, músico, integrante do Conselho Indígena da Comunidade e irmão do Cacique Lázaro, índio símbolo de retomadas do povo Kiriri. A escola atende a todas as comunidades indígenas do município, como as localidades de Lagoa Grande, Pau Ferro, Marcação e Mirandela. Tem uma estrutura colegiada, administrada pelos próprios índios, com diretoria, cinco assistentes administrativos, dois articuladores pedagógicos, duas secretárias, 26 professores, merendeiras e vigia, para um universo de 479 alunos índios.
A escola funciona nos três turnos e está provisoriamente dividida entre as instalações físicas da creche e outras poucas salas em condições de funcionamento, na escola, que fica em frente, e que está literalmente no chão, aguardando a liberação de recursos para a manutenção da estrutura predial, que caiu quase que totalmente, por falta de manutenção.
Pela manhã, os alunos do pré escolar à 2ª Série dividem os pequenos espaços; assim como à tarde, da 3ª a 5ª série; e à noite, da 5ª série B à 8ª série. Em Mirandela, sede da Aldeia Kiriri, funciona esta Escola, chamada de Núcleo Mãe, para atender aos alunos da 1 ª à 4ª séries , que tem menos idade e que moram nas comunidades mais próximas. Um carro velho, desconfortável, zuadento, e um ônibus, caindo aos pedaços, fazem o deslocamento de alunos e professores das comunidades mais próximas, como Pau Ferro e Marcação, até a Escola Mãe, em Mirandela. Escola Mãe e Escolas Filhas
Os professores também se deslocam até os núcleos anexos, chamadas de ” Filhas 1, 2 e 3 ”, que funcionam em outras comunidades para dar aulas aos alunos que estão mais longes do Núcleo Mãe, nas Aldeias de Pau Ferro, Gado Velhaco e Marcação. A escola tem metodologia própria, valoriza o resgate das raízes indígenas, através do ensino da cultura e prática do idioma Inuka (tronco da língua Kiriri) onde o professor de Cultura indígena, Adenilson de Jesus Souza, integra os rituais dos pajés, berço para difusão da língua entre os mais novos.

A estrutura administrativa é voltada para dar acompanhamento de freqüência, com diário escolar, ficha de matrícula, relatórios com apresentação de resultados. Funcionando como escola indígena desde 1996 o projeto pedagógico vem sendo aperfeiçoado ano a ano e avançou a partir da conquista de lutas territoriais e políticas, com a garantia de acessos à estrutura de educação do estado, já que o município segundo os índios, historicamente sempre foi complicado.
Os alunos, assim como a toda a comunidade Kiriri, se veste com roupas tradicionais, feitas a partir do Imbé, pindoba da palha do ouricuri. O professor de cultura indígena gosta de levar os alunos para aprender coisas do dia a dia, na própria mata, pra ver de perto animais, frutas, raízes e toda a riqueza que faz a cultura indígena resistir ou não. Ele se preocupa em mostrar como surgiu a roça comunitária, a história do projeto pedagógico da escola, e abre espaços livres para manifestações espontâneas dos alunos.
“Eles vão para roças, ouvir palestras dos índios mais velhos sobre a importância de estarmos juntos, perto um do outro, trabalhando com a comunidade”. Cozinham embaixo das árvores com lenha e aprendem a interagir com o ambiente, com harmonia”, diz Professor Adenilson, índio muito sério, com característica bem forte da aldeia Pau Ferro, que mostra prazer em poder difundir a cultura entre os mais novos, mas, também não esconde a indignação diante dos desafios diários, como as longas caminhadas, até noturnas, para sair de uma aldeia para outra para dar
aula aos seus alunos.

Tupinambás Serra do Padeiro
A Serra do Padeiro ainda conserva pouco da riqueza da Mata Atlântica. A nova ordem mundial, pós efeitos negativos das mudanças climáticas, nos mostra a urgência de corrermos atrás de prejuízos históricos, como a dizimação das florestas e do povo que dela tenta cuidar, para viver. A exemplo da comunidade Serra do Padeiro – Reserva indígena no município de Buerarema- Sul da Bahia. Quem estudou os problemas da comunidade, viu de perto o que eles fizeram em tão pouco tempo, com tão pouco apoio, e com tanto saldo positivo, tem a obrigação ética de mostrar, divulgar, a Serra do Padeiro como um santuário ecológico, uma reserva, um paraíso biodiverso.
O cuidado com as matas no povo Tupinambá
A comunidade tem consciência e coloca em prática os cuidados aprendidos com seus ancestrais indígenas para que o ambiente não possa, de forma nenhuma, ser preterido por práticas insustentáveis, como os massacres de serras elétricas, substituição de florestas por pastos de gado, plantação de eucaliptos ou exploração turística predatória, com práticas insustentáveis, como prostituição infanto-juvenil, especulação imobiliária, tráfico de drogas e exploração dos índios através do turismo de vitrine. A exploração cultural indígena para vitrine política governamental, em estética rasa, é um afronta à nossa história cultural.
Estive na Serra do Padeiro, fui recebida pelo Cacique Babal e outros representantes da comunidade e sou testemunha do protagonismo indígena na autosustentação, através de organização cooperativada. A Serra do Padeiro tem um sistema de agricultura familiar que deve ser modelo de vida não só para outras aldeias como para qualquer outros tipos comunidades tradicionais, esquecidas, perseguidas e massacradas, historicamente. A avidez do ganho fácil empresarial ou descaso político para a garantia de direitos, assegurados, como a terra, mas não ainda garantidos, estão sabiamente questionados por eles, que reaprendem, resgatam, resistem a costumes urbanos correndo atrás, se informando, se especializando, para tentar garantir o que sabem ser de direito.
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- Liliana Peixinho – Jornalista, ativista, pesquisadora independente. Autora do livro: “Protagonismo Indígena Nordestino. (Em edição). Especialização em Jornalismo Científico e Tecnológico; Mídia, Meio Ambiente, Responsabilidade Social; MBA em Hotelaria e Turismo Sustentável. Ativista direitos humanos.
Fundadora de mídias independentes: Movimento AMA- Amigos do Ambiente, Mídia Orgânica, Reaja, Catadora de Sonhos, Cuidar de quem cuidou, Rama- Rede de Articulação e Mobilização Ambiental, O outro no eu. - ___________________________________________________________________________________________________________
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