Por Albenísio Fonseca – Nas sombras úmidas do alvorecer, o baiano acorda com o ronco intenso de vozes no Pelourinho ecoando em seus tímpanos. Desce a Ladeira da Praça, pés chapinhando em poças que exalam o azedo da chuva noturna misturado ao suor de séculos.
O ar é grosso, um caldo de peixe podre e esterco de mulas, que sobe das sarjetas como fumaça de um caldeirão esquecido ao fogo. Salvador fede como uma ferida aberta, mas é ferida viva, pulsante.
Ali, entre os arcos tortos, ex-escravos erguem suas bancas improvisadas – herdeiros de grilhões agora senhores de gulodices. Mulheres de turbante branco, lenços amarrados como bandeiras de liberdade recente, vendem acarajés chiando em dendê fervente.
“Ô sinhô, leva um abará quentim, que esquenta a alma!”, grita Maria, ex-cativa de quilombo, os braços fortes moldados na roça e no cativeiro. O vapor sobe, doce e picante, cortando o mau-olhado das ruas. O repórter prova: crocante por fora, macio como um sonho de liberdade por dentro.
Ao lado, Zé Manezinho, negro alforriado com cicatrizes nas costas como mapas de dor, oferece cocadas duras e beijinhos de coco, sussurrando histórias de senzalas para quem compra.

O sol já morde o juízo quando o transeunte avança pela Rua do Carmo, desviando de mendigos e carroças que rangem como ossos velhos. O cheiro piora na Travessa das Flores – urina de cachorros vadios e restos de vatapá jogados ao léu –, mas ele respira fundo, acostumado. É o odor da Cidade Baixa chamando, magnética, prometendo o mar.
Passa pelo Mercado do Carmo, onde vozes se entrelaçam em um batuque improvisado: “Acabou, sinhá? Então leva mais um mungunzá pro teu amor!”
Finalmente, a Ponte do Bonde Elétrico surge como um milagre yankee no caos colonial. Inaugurada em 1882, ela une o Alto ao Baixo como um nervo de ferro e faísca. Antecede Paris. O cidadão sobe, paga o vintém ao condutor de bigode engomado, e o bonde range à vida – zzzzt! – com seu chiado elétrico, primeiro sussurro da modernidade em terra de atabaques.
Dali de cima, Salvador se revela: a Cidade Alta, nobre e fedorenta, escorrendo para a Baixa, onde o mar lambe os trapiches e o cheiro de peixe fresco lava as impurezas.
O baiano chega ao destino, coração acelerado não pelo trole, mas pela cidade que o carrega – fétida, gulosa, eterna. Como uma crônica datada de 1895, por um flâneur das ruas soteropolitanas.
Chegada ao coração fétido
O baiano desce do trole na Rua Chile, o peito arfando não pelo balanço das rodas no trilho enferrujado, mas pelo bafo quente da cidade que o engole inteiro. Salvador o recebe como amante ciumenta: fétida, com o fedor de peixe podre misturado ao incenso das igrejas, ao suor dos carregadores no Mercado do Carmo, subindo o plano inclinado do Pilar, ao cheiro doce de cachaça derramada nas calçadas de vias tortas.
A cidade, impiedosa, devora os olhos do recém-chegado. Vendedores gritam quitandas fumegantes, mulatas de saias rodadas dançam o forrobodó nas esquinas do Terreiro de Jesus, enquanto o sino da Catedral badala como um aviso: “Aqui não há pressa, mas eternidade”.
O sol poente banha os sobrados de azulejos rachados, e o ar vibra com o lamento das rodas de carroças, o riso rouco dos marujos no cais, o canto rouco de um boiadeiro perdido na ladeira.
Ele para, o coração aos pulos, sentindo a cidade pulsar nas veias – eterna, insaciável, com suas ruas que sobem como serpentes ao Pelourinho e descem ao mar faminto.
Não é o trole que o leva, mas ela, a cidade bela e suja, gulosa, que o carrega para sempre em seu ventre barulhento.
Albenísio Fonseca é jornalista, escritor, poeta e compositor.