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Especismo, experiência com animais e a cegueira ética da ciênciaOpinião    Imprimir

07/01/2018 16:00
Especismo, experiência com animais e a cegueira ética da ciência
O especista crê que, pelo simples fato de um indivíduo integrar a mesma espécie que ele, suas vidas são mais importantes do que a de outro ser não humano

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Por Wagner Ferreira (*)
wagnerpress@yahoo.com


Só uma palavra explica o fato de um ser humano viver como um sádico, atuando por toda sua vida profissional congelando, esquentando cães em microondas até a morte, viciando gatos em drogas ou provocando depressão em macacos: especismo. 

O termo foi usado pela primeira vez pelo psicólogo britânico Richard Hood Jack D. Ryder, em 1970. Cinco anos depois, o conceito foi largamente explorado pelo filósofo Peter Singer com o célebre livro Libertação Animal.

O especista crê que, pelo simples fato de um indivíduo integrar a mesma espécie que ele, suas vidas são mais importantes do que a de outro ser não humano. Idiossincrático, o especista reconhece o cerne da inferioridade dada pelos seres humanos aos animais quando aplica o princípio da sacralização da vida humana, descrita no Livro de Gênesis: então Deus disse: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”.

Tal afirmação bíblica não foi banida por René Descartes com o seu providencial Discurso sobre o Método – que tirou a Igreja Católica das discussões que explicavam a origem de tudo na Terra – mas reforçada. Na mesma publicação, o filósofo francês afirma que os animais são autômatos. O equívoco repudiado por Voltaire, vem patrocinando a cegueira ética da ciência pelo mundo.

No Brasil, dois fatos envolvendo maus-tratos a animais chamaram a atenção da opinião pública em 2013: o massacre de cães na ilha do Marajó, no Pará – na ocasião, o prefeito da cidade de Santa Cruz do Arari pagou de R$ 5 a R$ 10 por cabeça de cão capturado. Ele alegou controle populacional de cães e gatos no município – e o resgate de quase 200 cães da raça beagle, mais alguns coelhos, que eram usados em experiências científicas para fins cosméticos pelo Instituto Royal, na cidade de São Roque, São Paulo. Participou da ação um grupo surgido após as últimas manifestações nas ruas do País, chamado Black Bloc, acusado de depredar o local.

Após treze anos de tramitação, o governo brasileiro sancionou, em 2008, a Lei Arouca (nº 11.794/08), que estabelece critérios para o uso de animais em experiências científicas. Com ela, foram criados o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e a constituição de Comissões de Ética no Uso de Animais (Ceuas), mecanismos que deveriam auxiliar o Estado a fiscalizar o uso de animais como cobaias, que não foi o caso da cidade paulista, pois não houve uma fiscalização efetiva.

O Ministério Público paulista investigava uma denúncia de maus-tratos no local, mas os ativistas resolveram não esperar a usual morosidade da Justiça, enquanto animais eram congelados com nitrogênio líquido, tinham suas barrigas abertas e fechadas inúmeras vezes e, enquanto vivos (poucos passavam de 1 ano de idade), eram mantidos em ambientes insalubres, em meio a fezes e urina.

A conduta dos defensores de animais foi necessária, ainda que considerada ilegal por parte do meio jurídico, já que invasão a domicílio é crime. Mas adentrá-lo mediante flagrante delito não. É o que garante a advogada, ativista da causa animal e vereadora de Salvador, Ana Rita Tavares. A militante já perdeu a conta de quantas vezes teve que abrir cadeados ou pular muros para salvar animais em risco de morte iminente.

Esse pensamento de vanguarda sempre existiu; Voltaire, Darwin, Nietzsche, Gandhi já defendiam esses seres. E contraria o que está posto – leis engessadas, que só contemplam o aspecto legal, sem levar em conta valores morais e éticos, sobretudo quando se tratam dos direitos dos animais – que a ação em São Paulo se justificou. Neste contexto, só se beneficia o legislador, sem se levar em conta a voz das ruas, externadas com passeatas pacíficas ou depredações violentas. Pouco importa a forma da mensagem. O importante é que ela existe e é legítima.

E por falar em violência, eis exemplos de violência velada: viver entre pessoas não sádicas, mas violentas, que recebem salários pagos por nossos impostos para infligirem, em instituições de pesquisas, atos de crueldade a seres tão puros, sem contar com o apoio de uma parte significativa da imprensa, que, ao invés de defender o interesse público, defende o interesse de seus clientes: anunciantes nos intervalos de seus telejornais, entre elas, grandes empresas de cosméticos e, ainda tentam nos fazer acreditar na verdade desses hipócritas, basta! Enxerguemos o que aqueles que vestem branco e são chamados de doutores insistem em não querer ver. E que eles abram bem os olhos para o nosso repúdio, seja ele pacífico ou não.

 

(*) Wagner Ferreira é jornalista especialista em Jornalismo Científico e Tecnológico pela Ufba



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