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Amamentar sem culpaOpinião    Imprimir

01/01/2018 13:33
Amamentar sem culpa


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Iracema Bahia de Sena* (drairacema@clinicaenare.com.br) 

Minha filha mais velha nasceu de parto natural, após nove horas de trabalho de parto. Resisti até o último instante para não induzir o parto ou fazer cesariana. Ela chorou forte e alto ao nascer, bastante edemaciada, com bossa serosanguinolenta na cabecinha e fratura de clavícula, por ter sido grande e ter que passar por um canal vaginal muito estreito de primeira gestação. Se eu não fosse tão fanática pelo parto natural, talvez fosse melhor ter aceitado a cesariana, nesse caso. Na segunda filha passei os nove meses orando para que ela nascesse um pouquinho menor, porque continuava desejando parto natural. Esta nasceu em casa porque não tive tempo de ir ao hospital e não chorou ao nascer, também quase não senti dor, de tão natural que foi. Ambas as filhas foram e são saudáveis.

Minha cunhada (in memorian) sofria com rachaduras nos seios a ponto de sangrar, enquanto eu insistia para que ela não abandonasse a amamentação, ensinando algumas técnicas para melhorar as rachaduras. Cada filho ela amamentou exclusivamente ao seio materno por mais de seis meses e ambas as crianças, também foram robustas e saudáveis. Relato minhas experiências para saberem quanto sou adepta ao natural, por esta razão optei pela homeopatia, em muitos casos.

Durante os primeiros vinte dias de nascida, minha primeira filha acordava a cada meia hora para mamar e logo dormia, mas eu tinha muito leite – era o que imaginava, pois meus seios cresciam e vazavam. Naquele momento eu não era pediatra, mas uma mamãe de primeira viagem. Perguntei ao pediatra o motivo dela acordar tantas vezes para mamar e ele me deu a resposta mais simples e lógica que já ouvi: “Ela está com fome”. Tal foi minha surpresa quando, ao extrair o meu leite com uma bombinha para confirmar as palavras do colega, o volume não passou de 10 ml em cada mama. Passei então a completar o leite materno com outro leite e foi verdadeiro alívio para minha filhinha, que finalmente pôde dormir tranquilamente e ganhar peso de acordo com a idade, e para mim também, que consegui descansar.  Eu e o marido optamos por uma parceria que deu certo: enquanto ela mamava ao seio, ele preparava a mamadeira. Após amamentação, ele a alimentava com o leite da mamadeira e a colocava para arrotar. Ficou finalmente, ótimo para todos.


A pequena Isabelly está às vésperas do quarto mês de vida, não demora nem 10 minutos em apenas um dos seios e já está saciada. Dorme quase três horas para solicitar nova mamada.

Já Arthur, com três meses de idade, mama 10 minutos em cada seio e também dorme de duas e meia a três horas.

Essas mamães alimentam exclusivamente seus bebês ao seio. Vejam a elegância e simpatia delas, ambas dispostas, ativas e felizes com seus bebês relaxados e tranquilos, e sem chupeta!

No ano de 1959 iniciou-se intensa propaganda de certo laboratório para promover leite em lata. Paralelamente, as mulheres passaram a sair de casa para trabalhar, dificultando em muito a amamentação. A pressa, agitação, a praticidade do leite artificial e a ansiedade da vida moderna associada ao culto à beleza (algumas mulheres não querem amamentar para não perderem a firmeza dos seios), possivelmente são alguns dos fatores que levaram à diminuição da produção de leite pelas mulheres, desde a década de 60. Recentemente, no entanto, o Ministério da Saúde decidiu inverter os valores e o leite materno voltou a ter sua soberania e importância na vida das mamães e bebês, a tal ponto que algumas mulheres estão cometendo o mesmo erro que cometi, ao recusar terminantemente oferecer outro leite que não o seu, algumas vezes deixando seu bebê faminto por longo tempo. Todo bebê nasce com reflexo de sucção para garantir sua sobrevivência, por isso automaticamente leva tudo à boca. Sem que ninguém precise ensinar, ele sugará o seio materno de acordo com a necessidade de seu organismo. Essa necessidade básica de ter sua fome saciada para sobreviver, precisa ser atendida de acordo com o apetite individual, para a criança se sentir plena, confortável e segura e possa dormir bem, porque durante os três primeiros meses é só o que fará: comer, eliminar e dormir. Caso esta necessidade básica não seja atendida, poderá se tornar um bebê irritadiço, insone e até desnutrido.

Não se deve oferecer nada além do que ele mesmo solicite, porque o objetivo não é engordar a criança, é saciar sua fome. Obesidade em crianças é tão maléfica quanto em adultos, levando a hipertensão e diabetes.


Outros recém-nascidos não dormem quase nada, choram o tempo todo, não saem do peito e não ganham peso, alguns chegam a ficar agitados, estressados e mal conseguem dormir. Nesses casos oriento completar com outros leites, se não houver nenhum outro fator que justifique tanto sofrimento. Crianças devem ter suas fomes saciadas com leite materno exclusivo a princípio, mas deve-se completar com outro leite, se necessário for. A alimentação deve obedecer a uma rotina, não é saudável o bebê passar o tempo todo ao seio materno, sem um ritmo e sem horário para dormir.

A culpa e autopunição em achar que não será uma boa mãe caso não consiga alimentar seu filho exclusivamente ao seio, podem ser os responsáveis por algumas crianças passarem fome logo ao nascer. O fato de que o leite aumenta quanto mais é estimulado pela sucção é outro impeditivo para algumas mães recusarem completar as mamadas com outros leites, mesmo vendo o tempo passar e seus filhotes em verdadeira agonia. Tenho um pacientezinho que mama pouco ao seio, é agitado e tem dificuldade para dormir embora a mamãe tenha bastante leite, por isso cada caso deve ser analisado cuidadosamente pelo pediatra.

Mamães, seus bebês necessitam estar bem alimentados para dormirem bem e produzirem tanto hormônios de crescimento, como leptina (hormônio que controla a sensação de saciedade) e insulina (hormônio que retira o açúcar do sangue). A privação do sono em qualquer idade aumenta a produção de cortisol  (hormônio do estresse)  e  a memória de curto prazo não é adequadamente processada.  Mamães, nem vocês nem suas glândulas mamárias trabalham em moto-contínuo. Glândulas mamárias também precisam descansar para produzirem mais leite. Depois de um bom descanso, as mamães ficarão mais pacientes e amorosas para trocar com seus filhos os olhares de amor que unem mãe e filho nesta hora sagrada da amamentação. Amamentar sem estresse, sem pressa, sem culpa ou autopunição, porque mais que o alimento físico, o que alimentará realmente seus filhos para o resto de suas vidas, será o seu amor e aconchego, pois é o que lhes dará segurança para seguirem em frente.

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 *Formada em Medicina pela Ufba em 1976, dedicou-se à pediatria e   neonatologia por vários anos. Conheceu a homeopatia em 1988 e       aprofundou-se nesses estudos, entendendo que cada indivíduo tem sua   particularidade e individualidade e identificou-se com a máxima   Hipocrática: “Não existem doenças, mas doentes”. 

Saiba mais sobre a autora em: clinicaenare.com.br/site
 



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